Brazil
18 de março de 2025

Em um cenário de margens de lucratividade mais baixas do que em um passado recente, causado principalmente por altos preços no custo de produção e valores baixos da soja, os agricultores se mostram mais cautelosos para realizar grandes investimentos, de forma geral. Nesse contexto, a tendência tem sido a redução de custos dentro da propriedade. Entretanto, algumas despesas são – ou deveriam ser – inevitáveis. Dentre elas, está a semente, o principal insumo da lavoura do produtor, seja na cultura do trigo ou em qualquer outra.
Na realidade desse contexto, alguns produtores acabam optando por salvar sementes da safra anterior para uso próprio ou recorrer a sementes piratas. Enquanto a primeira ação é prevista em lei e pode ser realizada, a segunda configura uma ilegalidade. Entretanto, ambas as decisões podem gerar prejuízos relevantes dentro da propriedade.
Esses impactos podem ser vistos por diversas óticas. Uma delas é a dos prejuízos financeiros para o produtor.
Como a legislação brasileira prevê níveis mínimos de pureza da semente, bem como vigor e potencial de germinação, o agricultor tem uma previsibilidade do produto que ele comprou para colocar na lavoura. E se, por algum motivo, algo dê errado no que diz respeito a esses níveis mínimos, ele possui uma garantia. Mas, com sementes salvas para uso próprio ou com sementes que não são certificadas, as piratas, ele não sabe o que esperar daquela semente (que, na verdade, é um grão), e tampouco possui alguma garantia dos potenciais prejuízos.
“Todo o investimento, todo o ciclo do agricultor depende do valor genético e do potencial germinativo e vigor dessa semente. Se você tiver uma população bem ou mal estabelecida, isso impactará diretamente o resultado da operação nessa cultura”, atesta Fernando Michel Wagner, Gerente Executivo de Negócios Institucionais da GDM Seeds para o Brasil.
Para Jhony Möller, diretor executivo da Associação Paranaense dos Produtores de Sementes e Mudas (Apasem), por mais significativo que possa ser o custo de obtenção da semente, todas as outras despesas também são. “Não adianta eu economizar em uma área e ter que investir às vezes mais em outras para ter uma compensação. Então, dentro de um processo tecnológico completo, eu preciso fazer um investimento completo”, destaca.
Benefícios da semente certificada
Sempre que o produtor adquire uma semente certificada, uma pequena parcela do valor investido são royalties pagos aos obtentores vegetais que desenvolveram aquela cultivar. “Esse royalty é o que vai possibilitar que novas cultivares sejam desenvolvidas, com maior potencial produtivo e tolerância a doenças e pragas”, destaca Jean Carlos Cirino, diretor executivo da Associação dos Produtores de Sementes e Mudas do Rio Grande do Sul (Apassul).
Para Cirino, quando se utiliza uma semente certificada, além da genética, algo intrínseco ao produto, o agricultor também adquire o acesso ao posicionamento daquele material. “Não resta dúvida que a união entre genética e posicionamento é o que vai realmente trazer maior potencial produtivo na lavoura”, cita.
Na cultura do trigo, outro aspecto é tão importante quanto o aumento no potencial de produtividade da cultura. “Um dos maiores benefícios que podemos citar é a capacidade de defensividade que a cultura entrega por si no nível de resistência de algumas doenças, especialmente com relação ao trigo desenvolvido para zonas subtropicais”, menciona Wagner.
Capacitação da indústria de sementes
Segundo Wagner, outro benefício que a aquisição de sementes certificadas traz tem relação direta com a indústria de sementes. “Essa indústria é cobrada por uma legislação própria, que no Brasil é bastante evoluída, e que precisa entregar uma semente com alto potencial germinativo, com bom vigor e com pureza”, acrescenta.
Assim, o produtor pode ter uma maior segurança da qualidade da semente adquirida. “É ter a quem recorrer se você tiver algum sinistro, algum evento climático ou problema com germinação e vigor. Eu faço o convite ao agricultor que está salvando semente: faça a experiência de comprar uma semente de alta qualidade e colocar ela no lado a lado, para ter um comparativo”, diz Wagner.
De acordo com Möller, quando o produtor utiliza grão – ou semente de uso próprio – ele não está utilizando uma semente que passou pelo processo produtivo “de A a Z”. “Temos um jargão: se plantou e não nasceu, perdeu”, afirma.
Legado da propriedade
Outra ótica também pode ser usada para constatar os benefícios da semente certificada. Conforme Cirino, ela tem relação com a sucessão do negócio.
— Você, agricultor de 40, 50, 60 anos, vai querer ter uma sucessão familiar, correto? Quanto de trigo você quer que seus filhos colham daqui a 15 anos, quando eles assumirem a lavoura? Você acha que irá conseguir chegar em uma média de 100, 110, 120 sacos por hectare apenas com as cultivares que se tem hoje no mercado? Então se você quer que seus filhos alcancem produtividades ainda mais altas no futuro, você precisa comprar sementes certificadas hoje. Caso você não retroalimente a pesquisa, ela não irá se sustentar.
Wagner, por sua vez, compartilha da mesma ótica. “Quando o agricultor faz o investimento de comprar a semente certificada, ele está retroalimentando a pesquisa e investindo, inclusive, no legado da propriedade dele. Interromper esse ciclo, através de sementes que não são certificadas, é trazer prejuízos para si mesmo, deixando de projetar a excelência em melhoramento genético pelos próximos seis, oito anos, afetando a transição de gerações”, comenta.
Contextos estaduais
Segundo Möller, o Paraná possui um contexto próprio em seu mercado de sementes, pelo fato da maior parte da produção e comercialização passar por dentro das cooperativas. “Dentro do sistema de cultivo, o trigo possui um papel importante na rotação de culturas e é, inclusive, um produto demandado pelas cooperativas, por elas terem moinhos próprios”, destaca.
Dessa forma, Möller aponta que o Paraná possui uma agricultura tritícola forte. “A semente certificada é fundamental para que os resultados sejam tão positivos quanto eles são”, ressalta.
Já no Rio Grande do Sul, Cirino aponta que, apesar da taxa de utilização de sementes certificadas no estado ser um pouco menor em comparação aos outros dois estados da Região Sul, ela ainda é elevada. “A taxa de uso de sementes de trigo sempre foi uma das mais altas entre todas as espécies cultivadas no RS. Mas é normal que todo ano ocorram pequenas variações nessa taxa, devido a questões comerciais, principalmente”, pontua.
Por outro lado, Wagner traz um alerta. “Num cenário geral, o Sul do Brasil, em especial o RS, vem perdendo percentual de taxa de uso de sementes certificadas. Isso vale para todas as culturas autógamas, como soja e trigo”, assinala.
Para ele, esse cenário é preocupante, porque “as empresas vêm investindo e essa oscilação faz com que elas deixem de ter previsibilidade”.
Uma decisão lógica
Segundo Möller, justamente pelo fato de a semente ser o principal insumo da lavoura, ela precisa ter sua qualidade garantida. “Se eu tenho a melhor máquina para plantar, mas não tenho uma semente boa, eu joguei muito dinheiro fora”, pontua.
Muitas etapas compõem o ciclo de uma lavoura. Desde a implantação da cultura, até sua colheita e os processos posteriores, diversas decisões precisam ser tomadas e muitos riscos precisam ser mitigados.
“Eu não consigo controlar chuva, frio, calor, temperatura, mas eu consigo controlar a compra de uma semente de qualidade. Por que eu vou arriscar? Se eu me basear pela lógica, eu uso semente certificada”, atesta Möller.