Brazil
September 4, 2008
Um tema ainda bastante polêmico,
apesar de as primeiras cultivares transgênicas terem sido
plantadas há 12 anos. Hoje, 12 milhões de agricultores em 23
países – sendo que 90% são de baixa renda – cultivam
transgênicos em 114 milhões de hectares em todo o mundo. Os
dados são da safra 2006/2007 e revelam um mercado global
estimado em US$ 7,5 bilhões, onde a área ocupada cresce a uma
média de 10% ao ano. “Nunca, na história da agricultura, uma
tecnologia foi adotada de forma tão rápida e constante”, analisa
Edilson Paiva, pesquisador da
Embrapa Milho e Sorgo
(Sete Lagoas-MG) e vice-presidente da CTNBio (Comissão Técnica
Nacional de Biossegurança).
Os Estados Unidos lideram o plantio de transgênicos, com 60
milhões de hectares, país seguido pela Argentina, com 19 milhões
de hectares. O Brasil ocupa a terceira posição, com pouco mais
de 15 milhões de hectares ocupados com a soja RR (Roundup
Ready), tolerante a herbicidas, e com o algodão Bollgard (com
tecnologia Bt). O milho é a cultura transgênica que mais avança
nos últimos anos, ocupando hoje 35 milhões de hectares em todo o
mundo, sendo que 24% das cultivares plantadas possuem genes que
conferem resistência a insetos ou a herbicidas. “Apesar de todo
o conhecimento já existente, os transgênicos são rotulados como
vilões por grupos sem informação”, diz Paiva.
E esta rotulagem, continua o pesquisador, é um obstáculo para a
geração de alimentos e de energia. “Temos um agronegócio
estruturado e podemos nos beneficiar desse conhecimento. Os
conflitos de competências já resultaram em um enorme atraso
tecnológico e temos que correr atrás desse prejuízo”, explica
Edilson, se referindo à necessidade de que profissionais com
isenção ideológica e experiência técnica e científica na área
biotecnológica atuem nas discussões sobre a liberação de
transgênicos. “Não vejo competitividade no agronegócio
brasileiro em cenários futuros se essas tecnologias não forem
adotadas”, antecipa.
‘Sou a favor da ciência’, diz Paterniani
O pesquisador da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queiroz da Universidade de São Paulo) Ernesto Paterniani,
referência em melhoramento genético de milho no Brasil, reforça
que as restrições impostas à CTNBio no período de 1998 a 2004
provocaram enormes prejuízos à agricultura brasileira. “A
transgenia é uma conseqüência da evolução do melhoramento
genético na agricultura, assim como os milhos híbridos foram no
século passado. Sou a favor da ciência e da liberdade para que o
produtor tenha poder de decisão para usar ou não a tecnologia”,
defende.
No processo de transgenia, as plantas selecionadas após o
processo de transferência de genes manifestam especificamente a
característica desejada. Desta forma, têm-se cultivares
resistentes a herbicidas e/ou a insetos. No caso do milho Bt,
por exemplo, apenas um gene extraído da bactéria Bacillus
thuringiensis é responsável por conferir à planta resistência às
lagartas que, ao se alimentarem das folhas, são intoxicadas e
mortas. Estudos científicos desenvolvidos pela FAO (Organização
das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) mostram,
segundo Paterniani, que a proteína gerada a partir do gene é
específica para combater somente aquela praga, sendo inócua para
seres humanos, animais de sangue quente, peixes, pássaros e até
mesmo para outros insetos. “Além da redução no uso de
agroquímicos, o ganho econômico é evidente”, conclui Paterniani.
Edilson Paiva, da Embrapa Milho e Sorgo, explica que após a
aprovação da Lei de Biossegurança em 2005 oito produtos foram
autorizados pela CTNBio para comercialização: soja RR e algodão
Bollgard, da Monsanto, milho e algodão Liberty Link da Bayer
(resistentes a herbicidas), dois eventos de milho Bt (MON 810 da
Monsanto e Bt11 da Syngenta) e duas vacinas contra a circovirose
suína, principal doença infecciosa da produção de suínos. “Todas
as liberações foram concedidas a empresas da iniciativa privada,
multinacionais. É urgente a definição de uma política pelo
governo brasileiro sobre o tema e o investimento nas
instituições públicas para que elas participem deste contexto”,
antecipa Paiva.
NANOTECNOLOGIA – A mesma crítica contra as posições antagônicas
sobre os transgênicos e outras tecnologias foi feita pelo
pesquisador Richard Domingues Dulley, do IEA (Instituto de
Economia Agrícola). “Esses movimentos polarizados e radicais
ignoram ou não dão importância à biotecnologia. Aquém dos
possíveis problemas que podem ser causados pela atividade na
agricultura estão os danos causados pelo uso indiscriminado dos
agrotóxicos”, pondera Dulley. A aplicabilidade da nanotecnologia
na agricultura, por exemplo, deverá percorrer longos caminhos
até estar disponível no campo. Possibilidades, segundo o
pesquisador, será a utilização de nanosensores inseridos em
plantas ou animais que indicarão, em tempo real, as reais
condições, como o ataque de doenças e estresses, como o hídrico.
Os temas foram debatidos durante o XXVII Congresso Nacional de
Milho e Sorgo, realizado pelo Iapar (Instituto Agronômico do
Paraná), a Embrapa Milho e Sorgo e a Embrapa Transferência de
Tecnologia, Unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento (Mapa). A promoção é da ABMS (Associação
Brasileira de Milho e Sorgo). Em assembléia realizada nesta
quarta-feira, definiu-se o local do próximo Congresso Nacional
de Milho e Sorgo: Goiânia-GO, em 2010. |
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