Brazil
July 18, 2006
O mundo
inteiro tem muito o que aprender com a experiência brasileira de
tropicalização da soja e de aumento da produtividade do feijão:
essa foi uma das principais conclusões da segunda sessão
paralela do Workshop Internacional sobre Desenvolvimento da
Agricultura Tropical (IWTAD), que está ocorrendo em Brasília
nesta semana. O Workshop, promovido pela
Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária - Embrapa - vinculada ao Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento - pelo Banco Mundial e
pelo Grupo Consultivo em Pesquisa
Agrícola Internacional (CGIAR), tem como objetivo discutir
as bases do sucesso da agricultura tropical.
Três cientistas de renome internacional participaram da
discussão, que teve como foco Impulsionando a Produtividade e a
Produção Agrícola de Leguminosas nos Trópicos: Joachim Voss
(diretor-geral do Centro Internacional de Agricultura Tropical -
CIAT), Maria José Del Peloso (pesquisadora da Embrapa Arroz e
Feijão) e Romeu Afonso de Souza Kiihl (pesquisador da TMG
Tropical Melhoramento e Genética e ex-pesquisador da Embrapa
Soja).
A apresentação de Voss foi focada na produção de feijão na
América Latina e África. E ele começou apontando que no mundo
todo há um investimento menor nas leguminosas e comparou a
produção de soja e de feijão no mundo, no Brasil e na África.
"Na América Latina, a área plantada diminuiu, o rendimento subiu
e a produção total permaneceu estável. Há necessidade de maior
investimento em pesquisa e desenvolvimento. Na África, a
situação evidentemente é bem pior".
O Diretor-Geral do CIAT também lembrou que doenças e pragas
ainda são os maiores problemas para a cultura de feijão no
mundo, seguido da baixa fertilidade do solo. Os maiores desafios
da pesquisa agropecuária passam, portanto, pela solução desses
problemas, além da revolução genética ("precisamos entender
melhor a genética do feijão"), a qualidade nutricional ("nova
dimensão da segurança alimentar"), o valor econômico de novas
variedades para a América Latina e o continente africano e
estresses bióticos e abióticos.
Com relação à qualidade nutricional, ele revelou que a meta do
CIAT é aumentar nos próximos anos em até 80% a presença de ferro
e em até 40% a de zinco nas próximas variedades comerciais. "A
Embrapa está fazendo um trabalho excepcional nessa área de
melhoria da qualidade nutricional do feijão e gostaríamos muito
de trabalhar com o Brasil para buscar soluções também para a
África".
Joachim Voss finalizou sua apresentação com um desafio: o feijão
pode contribuir muito para atingirmos pelo menos quatro das dez
metas do milênio. E a Embrapa pode ter um papel preponderante
nessa questão.
Feijão no Brasil - A pesquisadora Maria José Del Peloso iniciou
sua análise ressaltando algumas iniciativas governamentais que
influenciaram a produção de feijão no Brasil, como o Polocentro
na década de 70, a criação da Embrapa Arroz e Feijão e de alguns
programas nas décadas de 80 e 90 (como o Provárzeas, o Profir e
o Proni). "Mas o grande diferencial foi o surgimento, nesse
período, de uma terceira safra de plantio, fora da época de seca
ou de águas. Essa nova safra teve um impacto direto no Cerrado
Brasileiro e foi a grande responsável pelo fim das crises de
abastecimento do feijão no Brasil", afirmou ela.
Peloso lembrou também que a cadeia produtiva do feijão ainda é
muito desorganizada no Brasil e que a produção ainda é bastante
pulverizada pelo território nacional. "Hoje alguns setores dessa
cadeia já começaram a se organizar, como o de limpeza e
conservação, empacotamento e distribuição. E o consumidor
brasileiro já começa a mostrar também a sua exigência".
A pesquisadora mostrou que o feijão comum - o phaseolus - teve
30% da sua área plantada reduzida no Brasil nos últimos anos.
"Mas a produção aumentou, o que reflete aumento da
produtividade, devido à adoção de novas tecnologias,
principalmente relacionadas ao manejo e as novas cultivares",
explicou. No Norte e Nordeste estão sendo registrados aumentos
de produção, ao contrário das outras regiões. No entorno do DF
houve aumento da área plantada. A diminuição ocorreu em três
estados: Rondônia, Espírito Santos e Mato Grosso do Sul. Os
campeões de produtividade foram o Centro-Oeste, Paraná e sul de
São Paulo.
Outra preocupação apontada por Maria José foi com relação ao
consumo no Brasil. O consumo anual por habitante caiu nos
últimos 30 anos: de 22 para 13 quilos. Já um dado positivo
revelado por ela foi o avanço da produção da terceira safra no
Brasil no período de 1991 a 2005: 30% da produção de feijão hoje
é proveniente dessa safra, 30% da segunda safra (de época seca)
e 40% da primeira safra (da época de chuvas). E que 60% dda
produção da primeira e da segunda safras estão nas mãos de
pequenos produtores.
O mosaico dourado continua sendo a doença mais importante da
cultura. "E até hoje não temos uma solução definitiva para
combatê-lo", explicou ela. E que, ao contrário de outras épocas,
hoje não existe mais variação grande do preço do feijão durante
o ano. "Essa é uma das maiores conquistas para o consumidor
brasileiro".
Peloso enumera alguns fatores que contribuíram para a atual
realidade do feijão no Brasil: o treinamento dos recursos
humanos envolvidos com pesquisa agropecuária, a ampliação da
base genética de feijão, a geração de conhecimento (sistemas de
produção), a organização dos recursos genéticos ("importante
para o desenvolvimento de novas cultivares, pois hoje temos mais
de 14 mil acessos de feijão comum"), o estabelecimento de redes
de parcerias, a obtenção de cultivares, o trabalho da Embrapa
("cada dólar investido na Embrapa Arroz e Feijão gerou dez
dólares depois para a sociedade"), a colheita mecanizada, a
inserção do feijão na integração lavoura-pecuária, a ocupação de
espaço na várzea sob sistema de subirrigação, o zoneamento
climático ("que reduziu o risco para os produtores") e o manejo
integrado de pragas.
Do ponto de vista da pesquisa, ela lançou alguns desafios que
precisam ser atingidos no futuro próximo: tecnologias para
enfrentar novas doenças (principalmente o mosaico dourado),
melhoria da qualidade do grão (físicas, culinárias,
nutricionais, funcionais e de biofortificação), identificação de
raças de patógenos, produção de sementes sadias, química e
fertilidade do solo, seca e altas temperaturas, manejo integrado
de pragas, contínuo aumento da produtividade, produção integrada
etc.
O perigo da ferrugem - O último painel da sessão foi feito pelo
ex-pesquisador Romeu Afonso Kiihl, da Embrapa Soja, que há 41
anos trabalha na área. E ele logo lançou uma afirmação de peso:
"acreditamos que a solução para a soja no mundo passa pela
integração lavoura-pecuária, pois EUA, Brasil e Argentina não
podem mais aumentar a área plantada, abrindo novas fronteiras. A
solução, portanto, passa pela produtividade, pela incorporação
das pastagens degradadas à agricultura".
Na opinião dele, dez fatores influenciaram o sucesso da
tropicalização da soja no Brasil: a boa distribuição de chuvas
no Brasil Central, os gaúchos (que ajudaram a revolução do
Cerrado), a criação da Embrapa Soja em 1975, o plantio direto
("que reduziu a perda de solo e de água em 70%"), a fixação
biológica de nitrogênio, o manejo integrado de pragas
("precisamos, inclusive, de uma nova campanha para manejo de
pragas no Brasil"), o acesso so germoplasma (banco, linhagens e
variedades), o aumento da produtividade (52 quilos por tectare
ao ano), a mecanização e o melhoramento genético.
Como desafios, Romeu coloca como prioridade número um a ferrugem
da soja. "Vejo cenários sombrios com a presença da ferrugem e
isso requer soluções urgentes da pesquisa, que passam pelo
melhoramento genético tradicional. A Embrapa já identificou,
inclusive, dois marcadores, passos essenciais nesse sentido",
afirmou. Mas também enumera outros campos de atuação futura:
nematóides, bioenergia e aumento constante da produtividade.
Com relação à transgenia, Kiihl mostrou uma preocupação. "Os
principais genes estão nas mãos de indústrias poderosas. Não
podemos deixar, por exemplo, o BT do algodão nas mãos de uma só
empresa. Por isso, um pouco mais de investimento governamental
em transgenia - e o trabalho da Embrapa nesse campo é exemplar -
seria fundamental", ponderou. E dentro da cultura da soja, a
transgenia tem um desafio grande também relacionado ao gene BT
de resistência à lagarta ou um outro de resistência a herbicida. |