Naturalmente,
o fruto da melancia forrageira após maduro se conserva por mais
de um ano sem perder suas qualidades nutricionais. O mais
impressionante é que a conservação pode ser obtida com a
manutenção do fruto amadurecido no próprio campo onde foi
cultivado e sob o sol escaldante das áreas secas do Nordeste,
sem qualquer necessidade de práticas sofisticadas de
armazenamento.
Para os pesquisadores da
Embrapa Semi-Árido (Petrolina-PE), unidade da
Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária-Embrapa, vinculada ao Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento, este tipo de melancia é
um recurso alimentar essencial à criação pecuária da região. De
origem africana, ela difere das melancias tradicionais
comercializadas em supermercados e feiras livres, que possuem
casca verde, polpa vermelha e são doces. A espécie forrageira,
ao contrário, tem casca dura bastante resistente aos impactos e
à deterioração, a polpa é branca e geralmente consistente, e
apresenta baixo teor de sacarose o que a torna sem sabor.
Água – Nas
propriedades, porém, faz a diferença. Durante a seca que ocorreu
entre os anos de 1990 e 1994, a disponibilidade da melancia
forrageira garantiu aos criadores a alimentação para manter os
seus rebanhos sem a necessidade de vender animais a preços
baixos ou gastar recursos elevados na transferência dos animais
para locais distantes onde há forragens disponíveis.
Um hectare no sertão, a
depender da quantidade e da distribuição das chuvas, pode chegar
a produzir entre 25 e 30 toneladas de frutos. A estocagem da
produção no próprio campo é barata e prática para conservar os
frutos na época de seca. Contudo, se chover no período, pode
ocorrer alguma perda provocada por fungos e bactérias que podem
penetrar nos frutos juntamente com a água por meio de furos
causados por animais, como ratos.
O pesquisador Francisco
Pinheiro Lima Neto, da Embrapa Semi-Árido, destaca ainda que a
composição química geral dos frutos da melancia forrageira pode
ser considerada adequada, uma vez que os teores de proteína
bruta e de minerais se assemelham aos níveis mínimos,
constituintes da matéria seca das plantas forrageiras, exigidos
pelos animais. Alguns elementos, como potássio e cobre, são
encontrados em proporções muito superiores.
Esta espécie de melancia ainda
manifesta tanto resistência ao oídio, como tolerância a vírus
causadores de doenças que, comumente, provocam danos à melancia
tradicional, o que proporciona redução de gastos no manejo do
cultivo. Outra característica interessante dessa planta para os
criadores, é a grande quantidade de água dos frutos, cerca de
90%. Em proporções adequadas pode, inclusive, chegar a suprir
quase que integralmente a necessidade de água diária dos
animais. E isto não é pouca coisa numa região como o semi-árido
nordestino, enfatiza Pinheiro.
Ganho de peso e de
leite – Segundo o pesquisador, os percentuais de
proteína bruta e fibra bruta, bem como a digestibilidade /in
vitro/ da matéria seca dos frutos e das sementes da melancia
forrageira são comparáveis a iguais parâmetros observados nas
folhas e nos frutos da algarobeira, no capim-búfel nas
cultivares de palma forrageira, nas folhas e nas sementes de
leucena e nas folhas de gliricídia. Portanto, é uma alternativa
promissora para complementar a alimentação dos rebanhos no
semi-árido nordestino.
Testes realizados na Embrapa
Semi-Árido registraram que um grupo de novilhos pastejando
exclusivamente capim-búfel durante 90 dias, no período seco,
ganharam 26,5 kg de peso. Um outro grupo que tinha o pastejo
complementado com 25 kg de melancia por dia engordou 33 kg.
Avaliações de desempenho com
vacas de leite também demonstraram o valor da melancia
forrageira como fonte de alimento. Conforme dados levantados por
pesquisadores do centro de pesquisa junto a agricultores
familiares, as vacas chegam a produzir entre 5 e 7 litros de
leite por dia, quando têm sua dieta é complementada diariamente
com 30 a 40 kg desta melancia. Este resultado é verificado mesmo
quando o restante da alimentação das vacas é constituído por
restos de cultura secos ou pastos de capim-búfel com níveis
protéicos muito baixos, durante o período seco do ano.
Melhoramento genético
– Introduzida no Brasil no período colonial da história do país,
a melancia forrageira “naturalizou-se” e se disseminou por meio
de cruzamentos com outras espécies de melancia. Atualmente,
encontra-se na natureza uma grande quantidade de tipos. Os
pesquisadores Francisco Pinheiro L. Neto, Rita Mércia E. Borges,
Maria Auxiliadora C. Lima e Soraya T. Silva estão à frente de um
grupo mais amplo de pesquisadores da Embrapa Semi-Árido que vão
desenvolver um projeto de pesquisa, durante três anos, cujo
objetivo é melhorar geneticamente uma população de melancia
forrageira cultivada no Campo Experimental da Caatinga,
pertencente ao centro de pesquisa.
Da referida população, 100
frutos de diferentes plantas serão coletados. O critério inicial
dos pesquisadores para a escolha dos frutos será o tamanho. Em
seguida, vão ser medidos, em cada um deles, atributos
relacionados à produtividade, tais como o comprimento, a largura
e a espessura da casca, além de outros caracteres associados à
qualidade do fruto que são diretamente responsáveis pela
composição e pelo valor alimentar.
Após a análise dos dados, os
pesquisadores irão selecionar os 10 frutos com as melhores
características, cujas sementes serão então semeadas em uma área
isolada para que as novas plantas geradas não sejam polinizadas
por grãos de pólen de uma outra população de melancia. Isoladas
assim, as plantas originadas das sementes dos 10 frutos
selecionados se cruzarão de forma aleatória, o que provocará a
recombinação dos genes e permitirá a constituição de novos
arranjos genéticos que serão responsáveis pela geração de
plantas com características superiores.
O procedimento será repetido
por duas ou mais gerações enquanto houver variação genética
suficiente que possibilite a elevação dos parâmetros
considerados nos objetivos do projeto de pesquisa. A partir da
primeira seleção, o potencial de conservação dos frutos dos
melhores indivíduos será avaliado mensalmente, sob temperatura
ambiente.