Brazil
December 28, 2006
Os pesticidas têm um importante
papel no desenvolvimento da produção agrícola, principalmente no
que se refere ao manejo integrado de pragas e na agricultura
sustentável. Porém, várias ações têm sido feitas no sentido de
redução do uso de pesticidas químicos. Estes inseticidas
apresentam várias desvantagens, tais como: alguns produtos são
carcinogênicos, não sendo seguros ao ser humano; o uso
continuado favorece o aumento de resistência dos insetos;
aumento dos custos de produção e de registro, dificultando o
desenvolvimento e a produção de novos produtos.
Para os países que exportam produtos agrícolas, como o Brasil,
existe ainda uma razão comercial adicional para se reduzir o uso
de pesticidas. Pesquisas mostram que muitos consumidores acham
que o uso de produtos químicos é o problema mais sério em
relação à qualidade dos alimentos. Esses consumidores, via
indústria de alimentos e seus distribuidores, têm mostrado uma
forte preferência por produtos que minimizam o uso de produtos
químicos Um exemplo é o aumento do mercado de produtos
orgânicos, indicando um grande interesse do público consumidor
em produtos livres de pesticidas químicos ou, neste caso, até
mesmo a não utilização de defensivos agrícolas.
Dessa forma, a utilização de microorganismos tem se destacado
como grande alternativa para o controle de pragas, entre eles o
uso de vírus do grupo baculovirus. Eles são vírus de
invertebrados infectando principalmente lepidópteros, sendo que
mais de 500 isolados virais já foram descritos para diferentes
espécies de insetos. Eles são seguros ao homem e aos demais
vertebrados, são altamente específicos e até agora não houve
relato do desenvolvimento de resistência pelo inseto no campo.
Tradicionalmente, a produção comercial de baculovirus é feita na
própria lagarta. Em geral esse processo é trabalhoso e depende
da presença do inseto na lavoura. Apesar de ser possível fazer
criação de insetos em condições de laboratório, isso não é
aplicável a todas as espécies dependendo de fatores como seu
próprio ciclo de vida e do estabelecimento de dieta artificial
para a colônia.
No Brasil, o bioinseticida baculovirus anticarsia (AgMNPV) é
usado em mais de dois milhões de hectares de soja para o
controle da lagarta da soja (Anticarsia gemmatalis). Este é o
maior exemplo mundial de uso de um pesticida viral, o que
representa uma economia de milhões de dólares anuais. Além
disso, representa um modelo importante de substituição de
agrotóxicos, que são altamente prejudiciais ao meio ambiente,
por um controle ambientalmente correto. A produção do
baculovírus anticarsia é atualmente conduzida in vivo em
lagartas infectadas nas lavouras e depois levadas ao laboratório
para purificação e formulação viral.
Entretanto esse processo é dependente da presença de lagartas na
lavoura e só pode ser conduzido durante poucos meses do ano,
durante a plantação de soja. Desta forma, a produção de
baculovírus em larga escala, usando cultura de células poderá
aumentar a oferta de vírus, pois a produção atual não chega a
suprir 10% da área plantada no país e, além disso, as companhias
produtoras de vírus não conseguem atender à demanda pelo
produto. A produção in vivo de biopesticidas virais é a maior
fonte desses inseticidas atualmente presentes no mercado. Um
outro vírus com grande potencial como bioinseticida é o
baculovirus spodoptera para controle de lagarta do
cartucho-do-milho (Spodoptera frugiperda)
Devido aos avanços na área de cultivo celular, a produção de
baculovirus em células de insetos pode ser feita em diferentes
escalas desde cultura estática, spinners e biorreatores. Essas
células podem ser infectadas na forma extracelular de
baculovirus, o que resulta na produção da forma oclusa
(poliedros), que pode então ser utilizada como inseticida
biológico para combate ao inseto-praga.
Apesar de vantajosa em relação à produção in vivo, a produção de
baculovirus em sistema in vitro tem sido limitada devido a
alterações genéticas causadas pela passagem do vírus em cultura
de células. Existem dois principais tipos de alterações
relacionados ao efeito passagem. O primeiro é a formação de
mutantes com poucos poliedros no núcleo da célula do inseto,
denominado mutantes FP (Few Polyhedra). O segundo é a geração de
partículas virais com grandes perdas de seu genoma, denominadas
"Partículas Interferentes Defectivas (DIP)". Esses mutantes
levam à diminuição da produção de poliedros e, portanto, à
conseqüente perda da virulência do vírus produzido in vitro.
Diferentes estratégias têm sido propostas em estudos visando
superar essas limitações: a seleção de linhagens adequadas de
células e isolados virais mais estáveis; a otimização do
processo para o aumento de escala da produção in vitro, além da
caracterização do produto final são alguns dos elementos-chave
que devem ser pesquisados para o sucesso da comercialização de
inseticidas à base de baculovírus produzidos por processos
fermentativos.
Recentemente, estudos para a viabilidade da produção de
baculovirus in vitro foram iniciados pela
Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia, uma das 41 unidades da
Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária - Embrapa, em Brasília, DF, em parceria com a
Universidade do Rio Grande do Norte, em Natal, RN. Estratégias
foram estabelecidas para a produção do baculovirus anticarsia
(Anticarsia gemmatalis multiple nucleopolyhedrovirus) e do
baculovirus spodoptera (Spodoptera frugiperda multiple
nucleopolyhedrovirus) em cultura de células. Os ensaios de
virulência no inseto hospedeiro serão realizados na Embrapa soja
(Londrina, PR) e Embrapa Milho e Sorgo (Sete Lagoas, MG).
Espera-se que esses estudos possam contribuir para aumentar o
conhecimento dos mecanismos moleculares de interação do vírus
com a sua célula hospedeira e levar a maior estabilidade
genética do vírus durante sua multiplicação em cultura de
células. Futuramente pretende-se estender esses estudos para a
produção em alta escala em biorreatores.
Marlinda Lobo de
Souza, Maria
Elita Batista de Castro, William Sihler, Zilda Maria de
Araújo Ribeiro, Núcleo Temático de Controle Biológico - Embrapa
Recursos Genéticos e Biotecnologia -Brasília, DF
Márcia Regina da Silva Pedrini - Universidade Federal do Rio
Grande do Norte - Natal, RN |