Brazil
September 16, 2005
A chuva
intensa ocorrida esta semana deve afetar a qualidade do trigo
das lavouras que estão em fase de pré-colheita ou colheita. Isto
porque os altos índices de umidade estimulam a germinação do
grão na espiga, o que inviabiliza sua utilização para produção
de farinha. Em função dessas condições, os pesquisadores da
Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), estão recomendando
cuidado redobrado no recebimento do trigo paranaense após as
fortes chuvas desta semana.
"Os grãos das lavouras que já estavam em ponto de colheita e
permaneceram no campo, devem ser recebidos e armazenados
separados dos grãos das lavouras colhidas antes das chuvas. Esse
procedimento é necessário para evitar contaminação dos lotes de
boa qualidade", explica o pesquisador da Embrapa Soja (Londrina-
PR). Manoel Bassoi.
Já para o trigo que está para ser colhido, os pesquisadores
reforçam a importância de separar os lotes onde é possível
observar visualmente a germinação na espiga dos que não ainda
não apresentam. A vulnerabilidade do grão de trigo à umidade
ocorre porque, geneticamente, a maioria das cultivares é
sensível à germinação na espiga, o que acarreta declínio no
Número de Queda (NQ), chamado pelos técnicos de Falling number
(Fn), um dos índices que avalia a qualidade do trigo.
Um dos fatores que reduzem o Número de Queda é a ativação da
enzima alfa-amilase, que por sua vez degrada o amido presente no
grão de trigo, inviabilizando a farinha para fins industriais.
Essa ativação da enzima, no entanto, não se dá apenas quando
ocorre a germinação na espiga. A alfa-amilase pode ser
substancialmente aumentada mesmo antes dos grãos atingirem o
teor de umidade necessário para a germinação (a partir de 35%).
Com as chuvas intensas e prolongadas, como as que ocorreram essa
semana, os grãos não dormentes e prontos para a colheita, podem
apresentar alta atividade de alfa-amilase já a partir de 24% de
umidade. "Com certeza, muitos grãos de trigo atingirão esse
nível de umidade, ou até mais, estimulando a atividade dessa
enzima e, consequentemente, diminuindo o número de queda",
explica Manoel Bassoi.
Os estudos desenvolvidos pelos pesquisadores Claudinei Andreoli
e Manoel Bassoi mostram que lotes com boa qualidade de grãos de
trigo (baixa atividade de alfa-amilase) quando misturados com
apenas 2,5% de grãos germinados, podem apresentar baixo Número
de Queda. Além disso, em algumas cultivares, lotes com baixa
atividade da enzima misturados com 10% de grãos não germinados
com alta atividade de alfa-amilase, também podem ter baixo NQ.
Em monitoramento realizado há duas semanas, em coleções de
cultivares de trigo indicadas para semeadura no Estado do
Paraná, verificou-se que a maioria delas apresentava baixa
dormência, mais um sinal de que a atenção deve ser redobrada. As
pesquisas desenvolvidas na Embrapa mostram que, além dos
aspectos genéticos, outros fatores como os climáticos, também
influenciam a germinação na espiga. No Paraná, na maioria dos
anos prevalecem as altas temperaturas e clima seco da fase de
maturação fisiológica até o ponto de colheita, condições que
também provocam a rápida perda de dormência dos grãos. |