Vale do
São Francisco, Brazil
August 31, 2004
Os
plantios de melão no Vale do São Francisco já estão acometidos
pela doença do Amarelão. Provocada por um novo tipo de vírus,
ela atinge a qualidade dos frutos e ameaça a competitividade da
região produtora: a planta afetada emite frutos de boa aparência
externa, porém, com o teor de açúcar alterado, não tem sabor
algum. O vírus é transmitido às plantas dessa cucúrbitacea pela
ação da mosca branca.
A constatação da presença do Amarelão nas áreas de melão do Vale
foi feita pelo pesquisador Antônio Carlos Ávila, da Embrapa
Hortaliças (Brasília – DF), unidade da Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento. Ele coordena um projeto que levanta a
ocorrência de vírus nas regiões produtoras do Brasil. No Vale do
São Francisco, o vírus que causa o Amarelão encontra-se disperso
de forma generalizada pelos plantios do melão. Fiquei surpreso
com a extensão da doença, é uma situação preocupante, afirma
Carlos Ávila.
Danos – O Amarelão é uma doença relativamente nova no Brasil. O
primeiro registro da sua ocorrência no país aconteceu no ano
2000, nas zonas produtoras de melão dos estados do Ceará e Rio
Grande do Norte. Agora, durante incursões em oito áreas
produtoras do Vale na companhia de pesquisadores da Embrapa
Semi-Árido, ele identifica a intensa presença do Amarelão nos
plantios. È o quarto vírus em atividade na região e nessa
cultura, revela.
Não se deve subestimar a ameaça que representa os vírus,
enfatiza Carlos Ávila. Os danos que são capazes de causar não se
restringem à área agrícola. A depender da extensão da incidência
e a ausência de medidas efetivas de controle, a doença pode
acarretar impactos sociais muito negativos numa região
produtora: perdas econômicas, desemprego e freia o
desenvolvimento. Situação assim já foi vivenciada no Vale do São
Francisco quando doenças viróticas eclodiram nos plantios de
tomate, tornando necessário a erradicação de milhares de
hectares dessa cultura.
O sintoma mais evidente do Amarelão nas plantas é motivo de
confusão entre os produtores: o amarelecimento das folhas, com
uma coloração próxima da gema do ovo, é interpretado como
conseqüência de uma simples deficiência mineral da planta. Com
esse falso diagnóstico, o problema é tratado com ajustes nas
dosagens dos nutrientes que adubarão as plantas, explica o
pesquisador.
O atraso na identificação da doença retarda a adoção de medidas
de prevenção e controle, agrava os problemas fitossanitários da
área infectada e a produtividade da cultura. O mais grave dessa
situação, porém, é que depois que o vírus se instala é
praticamente impossível extermina-lo. O melhor a fazer é
estabelecer medidas de convivência que mantenha a sua incidência
em patamares que não inviabilizem o cultivo, explica Carlos
Ávila.
Medidas integradas – Segundo a pesquisadora Rita de
Cássia Dias, da Embrapa Semi-Árido, o vírus que causa o Amarelão
é o quarto já relatado na cultura do melão no Vale do São
Francisco – os outros três são: vírus da mancha anelar do
mamoeiro – estirpe melancia (PRSV-W), vírus do mosaico da
melancia (WMV) e o vírus do mosaico amarelo da abobrinha de
moita (ZYMV). O mais grave é que todos eles estão presentes ao
mesmo tempo nos plantios. O emprego intensivo de produtos
químicos no controle dos insetos que são vetores desses vírus
quase sempre não é uma solução eficiente, destaca Rita.
A Embrapa está trabalhando no desenvolvimento de cultivares com
resistência tripla às citadas doenças viróticas. Essa é a medida
mais efetiva, garante a pesquisadora. Alguns materiais testados,
em campo de produção da Embrapa Semi-Árido, mostraram-se
eficazes em não contrair os sintomas do vírus de maior
importância econômica na cultura do melão em todo o Nordeste: o
PRVS-W. Em outros estudos que envolvem duas outras Unidades da
Embrapa, Hortaliças e Agroindústria Tropical, estão sendo
desenvolvidos e avaliados novas linhagens e híbridos
experimentais para resistência aos três vírus. Os resultados são
animadores, revela Rita de Cássia.
Na ausência dessas variedades, é conveniente para os
agricultores adotarem um conjunto de medidas que, integradas,
são a melhor maneira de prevenir e combater as doenças
viróticas. A pesquisadora elenca algumas delas: eliminação de
plantas daninhas na área de cultivo e nas proximidades do melão,
utilizar armadilhas amarelas para captura e monitoramento dos
insetos, proteção das mudas de melão para evitar contaminações
precoces, recorrer à cobertura de plástico transparente ou
coberturas com material parecido com tecido das plantas nas
áreas cultivadas até antes da frutificação; e empregar
agroquímicos eficientes no controle dos vetores de vírus que não
sejam agressivos nem ao meio ambiente nem às abelhas que
polinizam o melão. |