Brazil
May 14, 2004
Os rendimentos recordes da última
safra de trigo chamaram a atenção para as variações de
produtividade nas diversas regiões do Rio Grande do Sul. Como é
possível potencializar o uso de tecnologia no sistema produtivo,
sem que isso signifique apenas aumentar gastos? A resposta é
apresentada com o exemplo de dois tradicionais produtores de
trigo no estado, que desmistificam os segredos da alta
produtividade no campo.
Estudos desenvolvidos pela
Embrapa Trigo (Passo Fundo, RS) unidade da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento, mostram que, nos últimos
anos, a produtividade de duas toneladas por hectare em ambiente
natural pode chegar a 15 toneladas num ambiente controlado.
A diferença de 13 toneladas, conforme o pesquisador Osmar
Rodrigues, está nos fatores bióticos, considerando
principalmente temperatura, disponibilidade de água e radiação
solar. "Precisamos reconhecer que, ao conduzirmos a lavoura da
mesma maneira, com o mesmo manejo, mesmos materiais cultivados,
dificilmente obteremos o mesmo índice de produtividade no ano
seguinte. Dependemos essencialmente dos recursos naturais, e as
condições climáticas, por exemplo, nunca se repetem", explica o
pesquisador.
Na safra passada, a instituição manteve o monitoramento das
lavouras de trigo em 11 propriedades do estado, das quais nove
atingiram de três a quatro toneladas por hectare, rendimento bem
acima das médias regionais da triticultura gaúcha (mapa).
A propriedade de Narciso Barison está localizada na região mais
produtiva para cereais de inverno no estado, Planalto Superior.
Em Vacaria, Barison iniciou o cultivo de trigo há quase quatro
décadas. O trabalho de monitoramento da produção foi decisivo
para crescer num mercado cada vez mais competitivo.
"Registramos todos os dados e atividades de manejo da
propriedade há cerca de 17 anos. Isso permitiu manter a média de
produtividade em 50 sacos por hectare, mesmo nos anos de
frustrações com a seca ou geadas", conta o produtor, lembrando
que a maior quebra registrada na lavoura foi em 1997, quando
houve muita chuva na colheita e o rendimento caiu para 1.800
kg/ha.
De acordo com Barison, nas lavouras da região é comum uma quebra
de 7% nas culturas de inverno, e de até 20% em culturas de
verão. "Esse percentual não chega a ser representativo no
resultado final da safra. Na rotação, se somarmos as culturas de
verão às de inverno, em termos de renda por hectare, superamos a
região do Brasil Central, onde a monocultura alcança maior
rendimento, mas a um custo mais elevado", argumenta Barison.
A agricultura de precisão é a base da propriedade. A lavoura é
monitorada com o uso de GPS (Sistema de Posicionamento Global
via satélite), regulagem freqüente nas máquinas, estudos de
logística e mercados, sistemas de secagem e armazenagem
próprios, análises bianuais de solo em amostras distribuídas a
cada cinco hectares, visita de fitopatologistas ao menos duas
vezes durante a safra, contato regular com órgãos de pesquisa e
a rotação de culturas são os fatores que garantem os bons
resultados. "Trabalhamos direcionados ao aumento de
produtividade e à redução de custos. Sempre fomos entusiastas do
trigo e acreditamos que a abertura do mercado externo vai
estimular ainda mais a produção", diz Barison.
Neste ano, Narciso Barison pretende plantar 1.600 hectares de
trigo, destinados tanto para a indústria quanto para a produção
sementes. As cultivares selecionadas são a BRS Angico e a Ônix.
A semeadura na região inicia em julho, com a colheita prevista
para a segunda quinzena de dezembro. "O potencial de rendimento
da área chegou a 6 mil quilos por hectare, numa unidade
experimental plantada com BRS 179", conta Barison, avaliando que
manter a produtividade da última safra – 3.600 kg/ha – é a meta
da família.
Acima da média
regional - A
região das Missões sempre apresentou um dos menores rendimentos
em trigo, servindo o seu cultivo mais para favorecer a soja
(aporte de nutrientes e diluição de custos fixos) que
propriamente agregar renda à propriedade. Entretanto, novos
resultados de produção estão mudando esta visão equivocada e
despertando o interesse do produtores em obter renda também com
os cereais de inverno.
Na propriedade de Azir Costa Beber, em São Luiz Gonzaga, uma
área de 1.000 hectares está destinada ao plantio de trigo, na
rotação soja/milho no verão. No ano passado, Costa Beber dividiu
a área em glebas com as variedades BRS 179, BR 23, Onix Jaspe e
as novidades BRS Timbaúva, BRS Angico e BRS Figueira, lançadas
há pouco pela Embrapa Trigo.
A ousadia em experimentar materiais novos, associada à
experiência no uso de tecnologias agrícolas, resultou numa
produtividade de 53 sacos por hectare. Um rendimento que
representa dois mil quilos acima da média regional. Como se não
bastasse, as parcelas experimentais instaladas na propriedade já
atingiram os 5 mil kg/ha. Um dos segredos do profissional do
campo, que produz trigo há mais de 40 anos, é a rotação de
culturas. "Nunca repetimos trigo na mesma área em anos
consecutivos.
No próximo cultivo de inverno substituímos por aveia ou canola,
o que garante a fertilidade do solo, reduzindo gastos com
adubação e permitindo estabilidade na produção", esclarece Costa
Beber, lembrando que "a planta alimentada não só produz mais,
como também aguenta mais as variações do clima e outros
estresses ambientais". Na região das Missões o plantio começa na
segunda quinzena de maio com a colheita prevista para o final de
outubro. "O trigo precisa ser plantado em, no mínimo, um terço
da área para viabilizar a cultura de verão", conclui Azir Costa
Beber.
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